Morin

Educação e Cultura

Edgar Morin
2002

O século 21 verá o desenvolvimento de processos culturais concorrentes antagônicos, complementares em certos casos, que se manifestaram no final do século 20:

1) a expansão planetária da esfera das artes, da literatura e da filosofia;

2) a homogeneização, padronização, degradação e perda de diversidades, mas também a dialógica (relação antagonista e complementar) entre produção e criação;

3) o desenvolvimento de um folclore global;

4) o desenvolvimento de grandes ondas transnacionais, encontros, mestiçagens, novas sínteses e novas diversidades;

5) o retorno às fontes, a regeneração das singularidades. O conjunto de fatores que inclui a expansão da internet como um sistema neurocerebral artificial de caráter planetário e o desenvolvimento da multimídia irão exacerbar e amplificar as tendências em curso e acentuar os antagonismos entre uma organização concentrada, burocrática e capitalista da produção cultural de um lado, e as necessidades internas de originalidade, singularidade e criatividade do produto cultural de outro, ou seja, a necessidade da produção de levar em conta sua antagonista, a criação. Da mesma forma, ocorrerá o desenvolvimento concorrente e interferente entre, de um lado, o processo de padronização cultural e, de outro, o processo de individualização cultural, não apenas quanto às obras, mas também quanto ao seu uso.

1) a expansão planetária
As grandes esferas culturais estavam fechadas umas às outras e, para os europeus, a cultura “universal” era a cultura do universo das obras européias, tanto na Literatura (Cervantes, Shakespeare, Molière, Balzac etc.), quanto na poesia ou na música. Ao longo do século 20, uma esfera verdadeiramente universal constituiu-se. As traduções multiplicaram-se. Os romances japoneses, latino-americanos e africanos foram publicados nos principais idiomas europeus e os romances europeus foram publicados na Ásia e nas Américas. As músicas ocidentais encontram intérpretes em todos os continentes e a Europa se abre às músicas do oriente árabe, da Índia, da China, do Japão, da América Latina e da África. Essa nova cultura mundial certamente ainda é isolada em esferas restritas em cada nação, mas seu desenvolvimento, que é um traço marcante da segunda metade do século 20, irá prosseguir no século 21. Ainda que os modos de pensamento ocidentais tenham invadido o mundo, os modos de pensamento de outras culturas resistem e são doravante difundidos no ocidente. O ocidente já havia traduzido o Avesta e os Upanisads, no século 18, Confúcio e Lao Tsé no século 19, mas as mensagens da Ásia permaneciam apenas objeto de estudos eruditos. É apenas no século 20 que as filosofias e místicas do Islã, os textos sagrados da Índia e o pensamento do Tao e o do budismo tornam-se fonte vivas para a alma ocidental arrastada/acorrentada ao mundo do ativismo, do produtivismo, da eficácia e do divertimento e que aspira à paz interior e à harmonia consigo mesma. Surgiu então uma demanda ocidental pelo oriente, com grande procura pelas formas vulgarizadas e comercializadas da ioga e das mensagens do budismo.

2) A padronização cultural e seus limites
A chegada do cinema, da grande imprensa e depois do rádio e da televisão no século 20 conduziram ao desenvolvimento da industrialização e da comercialização da cultura com o auxílio dos seguintes fatores: da divisão especializada do trabalho, da padronização do produto e sua mensuração cronométrica, da busca da rentabilidade e do lucro.

No entanto, a indústria cultural não pode eliminar a originalidade, a individualidade, aquilo que chamamos talento. Não apenas não pode eliminá-lo, como tem dele uma necessidade fundamental. Mesmo se um filme é concebido em função de algumas receitas padrão (intriga amorosa, final feliz), ele deve ter sua personalidade, sua originalidade, sua unicidade. Dito de outra forma, a produção de uma novela ou de um filme não se assemelha à de um automóvel ou à de uma máquina de lavar. E é um símbolo que Hollywood tenha invocado William Faulkner, um escritor que pode ser considerado extremamente criativo, entregue à sua própria paixão, ao seu próprio ardor, seus próprios fantasmas e obsessões. É claro, o gênio de Faulkner raramente foi mostrado nos filmes de Hollywood, mas uma parte dele manifestou-se com freqüência  neles. Deste modo, em tudo que se ergue da indústria cultural há um conflito permanente e, ao mesmo tempo, uma complementaridade constante entre o individual, o original, a criação e o produto padronizado, simplificando, entre a Criação e a Produção. É evidente que algumas obras são estereotipadas, padronizadas, chatas, enquanto outras possuem algo que transforma o estereótipo em arquétipo como os grandes arquétipos mitológicos. Um gênero como o Western, que produziu tanto filmes de terceira quanto obras-primas, tem sua força no caráter mitológico e arquetípico da conquista do Oeste,  vivida não apenas como uma epopéia singular mas também como o momento da instauração da lei, quando ainda não havia lei, da introdução da ordem e da justiça onde reinava o furor da violência. Os filmes de samurai nos mostram a luta épica do cavaleiro solitário pela justiça e pelo bem num mundo sem lei.  Assim, grandes autores como John Ford ou Kurosawa realizaram suas obras primas.

A indústria cultural é animada portanto por uma contradição que, ao mesmo tempo, destrói em si mesma os germes da criatividade e os suscita. Hoje, a literatura existe pelo livro impresso, um meio de multiplicação em massa. Apesar disso, a literatura conserva ainda hoje um  princípio artesanal. A produção da obra, mesmo com o computador, guarda um caráter individual. Contudo, a literatura, com o desenvolvimento das grandes editoras, sofre cada vez mais as pressões da industrialização e da comercialização.

Houve um tempo, que durou alguns séculos, em que o texto manuscrito era enviado ao editor, o que logicamente supunha inúmeras correções nas provas. Os manuscritos de Proust comportavam um número tal de colagens que se desdobravam sobre os lados, acima e abaixo das páginas, que foram apelidadas “paperolles”, papelório. Hoje, deve-se enviar um disquete definitivo ao editor, proibido de realizar correções de autor nas provas, a não ser que o custo seja coberto pelo próprio autor.

Pois bem, uma obra literária amadurece a partir de objetivações sucessivas que permitem ao escritor afastar-se desse embrião que saiu de suas “entranhas mentais”. Percebendo-o de forma cada vez mais distanciada, isso permite que ele realize não apenas pequenos retoques, como faz o pintor que se afasta da tela, mas também, às vezes, modificações profundas que são necessárias. Pense que “Em Busca do Tempo Perdido”, de Proust, não seria o que é se Proust não tivesse tido a possibilidade de transfigurar totalmente a primeira impressão de sua obra.

A este fato juntam-se as limitações de volume. Os editores não gostam nem dos livros muito curtos e nem dos livros muito grandes, a menos que prevejam antecipadamente um best seller. O tamanho e o volume do livro permitem então um aumento do preço e, conseqüentemente, do lucro.

Em seguida, há o processo de pré-seleção realizado pelos editores influentes. Um grande editor, que edite de 15 a 20 livros por mês, pré-seleciona os que julga possuir uma resposta de público. A assessora de imprensa não diz, é claro, aos críticos: “O senhor irá receber 15 livros que são todos obras-primas”. Não, ela dirá: “Peço-lhe que leia este livro, ele certamente o agradará”. Além disso, note que falo das assessoras de imprensa no feminino, enquanto os críticos são em sua maioria do sexo masculino, o que favorece as pressões de charme, que não têm evidentemente nada a ver com o conteúdo intrínseco das obras.

Enfim, o efeito extremo desta pré-seleção é o fenômeno bastante conhecido da “best-sellerização”, a fabricação de best sellers. O que ocorre com o livro acontece também com o cinema; há receitas para se produzir um best-seller, uma dose de sangue, de violação, de amor, de violência, de paixão, de massacre, de conflito e de ciúmes, mas não há jamais a certeza de que tudo isso junto possa resultar num best seller. Felizmente, há uma parte aleatória. Contudo, trata-se de um processo que, desde o momento em que se inicia, torna-se irresistível - é o que chamamos feedback positivo:  o aumento da venda gera uma explosão das vendas etc. Criam-se fenômenos epidêmicos de contágio, o que faz com que, no mundo da literatura na França, alguns livros tenham tiragens de 1.000, 1.500, 2.000 exemplares, no limiar da rentabilidade, enquanto outros atingem e até ultrapassam os 200.000 exemplares. As revistas praticam a “parada de sucessos” de livros da mesma forma que para os cantores de rock ou outros produtos da indústria cultural. Os livros são cotados em função dos números de suas vendas num certo número de livrarias, que varia segundo o público visado pelas revistas. As melhores notas – os livros mais vendidos  - tendem a prescrever sua compra, senão a leitura.

Última restrição, a rotação muito rápida dos livros nas livrarias. Os grandes editores deixam os livros em consignação com os livreiros, que não pagam no momento da entrega e que têm o prazer de devolver os livros que não são vendidos. Se o editor já pré-selecionou este livro acreditando que fará sucesso, irá enviar uma quantidade grande para venda em consignação e fará um esforço enorme de publicidade e junto aos críticos para que esses livros sejam vendidos. Todos os livros que escapam a este sistema, no entanto, irão cair em um turbilhão. Os livros de autores jovens, os livros de autores difíceis, os livros que ainda não tem seus fãs e tietes, ou seja, se este livro não é sinalizado de alguma forma, ele desaparece ao final de dois meses na livraria.

Este sistema, tão prejudicial à criação, não a anula, pois os editores têm ainda mais necessidade de originalidade que os produtores de cinema.

Por outro lado, a diversidade é o antídoto mais potente para a padronização: a diversidade de editores para os livros e a diversificação das redes, no caso do rádio e da televisão.

3) O desenvolvimento de um folclore planetário
Ao longo do século 20, as mídias produziram, difundiram e urdiram um folclore global, a partir de temas originais saídos de culturas diferentes, ora renovados, ora sincretizados. A formidável “fábrica de sonhos” de Hollywood criou e propagou um novo folclore mundial através do western, do policial “noir”, do thriller, da comédia musical, do desenho animado - de Walt Disney a Tex Avery. As nações ocidentais, e depois as orientais, produziram seu cinema. Certamente, há com freqüência mais fabricação que criação num grande número de filmes, mas a arte do cinema floresceu em toda parte, em todos os continentes e, pela mediação da dublagem e da difusão dos aparelhos de televisão, ele tornou-se uma arte globalizada, ao mesmo tempo em que preservou as originalidades dos artistas e culturas. Pode-se mesmo notar que as co-produções reunindo produtores, atores e artistas de diferentes nacionalidades, como se faz muito atualmente, do “Leopardo” de Visconti a “Ran” de Kurosawa, chegam, através da produção cosmopolita, a uma autenticidade estética que se perdeu nos folclores regionais empobrecidos.

Um folclore planetário constituiu-se e foi enriquecido por integrações e encontros. Ele se espalhou pelo mundo do jazz, que se ramificou em vários estilos a partir de Nova Orleans, chegando ao tango, nascido no bairro portuário de Buenos Aires, ao mambo cubano, à valsa de Viena e ao rock americano, o qual produziu variedades diferenciadas no mundo inteiro. Integrou a cítara indiana de Ravi Shankar, o flamenco andaluz, a melopéia árabe de Oum Kalsoum, o huayno dos Andes e suscitou os sincretismos da salsa, do raï, do flamenco-rock.

Quando se trata de arte, música, literatura, pensamento, a mundialização/globalização cultural não é homogeneizante. Ela se constitui de grandes ondas transnacionais, mas que favorecem a expressão das originalidades nacionais em seu seio. Assim como ocorreu na Europa com o Classicismo, as Luzes, o Romantismo, o Realismo e o Surrealismo, também ocorre no resto do mundo com as ondas literárias, pictóricas, musicais, saídas a cada vez de um ponto diferente.

4) Encontros e mestiçagens culturais
Não esqueçamos que a mestiçagem sempre recriou a diversidade, favorecendo a intercomunicação. Alexandre, o Grande, a cada cidade conquistada na Ásia, fazia com que algumas centenas de jovens nativas se casassem seus guerreiros macedônicos; com as cidades que ele atravessou ou criou formaram-se as matrizes de civilizações helênicas brilhantes e fontes de arte mestiça greco-budista. A própria civilização romana bem cedo se tornou mestiça, assimilando em si toda a herança grega; ela soube integrar em seu panteão um número bastante grande de deuses estrangeiros e, em seu território, povos bárbaros que se tornaram romanos de direito, guardando sua identidade étnica.

A criação artística se alimenta de influências e de confluências. Assim, a tradição que hoje aparenta ser a mais autenticamente original, o flamenco, é, como o próprio povo andaluz, o produto de interpenetrações árabes, judaicas e espanholas transmutadas no seio e pelo gênio doloroso do povo cigano. Podemos escutar e ver no flamenco a fecundidade e os perigos do duplo imperativo, preservar – a origem – e abrir-se – ao estrangeiro. Do lado da preservação, houve inicialmente, graças sobretudo à afeição de alguns apreciadores franceses, o estudo e o retorno às fontes do canto jondo, que se havia consideravelmente degradado; assim, velhas gravações foram ressuscitadas em compilações; intérpretes esquecidos e decadentes tornaram-se mestres, formando, no respeito da tradição, novas gerações de intérpretes, desde então fortemente revigorados. Do lado da abertura, houve inicialmente a degeneração numa massa de “espanholices” vagamente sevilhanas, depois uma integração de fontes na música de Albéniz e na de Falla, e depois, enfim, as mestiçagens interessantes e recentes com as sonoridades e ritmos vindos de outras partes, como aqueles do jazz (Paco de Lucia tocando com John McLaughlin) ou do rock (no melhor Gipsy Kings).

O jazz foi inicialmente um híbrido afro-americano, produto singular de Nova Orleans, que se espalhou nos Estados Unidos, conhecendo múltiplas mutações, sem que os novos estilos fizessem desaparecer os estilos precedentes; e ele se torna uma música negra/branca, escutada, dançada e depois tocada pelos brancos e, sob todas as suas formas, ele se espalha pelo mundo, enquanto o velho estilo de Nova Orleans, aparentemente abandonado em sua fonte, renasce nos porões de Saint Germain des Près, volta aos Estados Unidos e se reinstala em Nova Orleans. Mais tarde, após o encontro do rhythm & blues, é na esfera branca que o rock aparece nos Estados Unidos, para se espalhar pelo mundo inteiro e, em seguida, se aclimatar em todas as línguas, adquirindo a cada vez uma identidade nacional.

Hoje, em Pequim, Cantão, Tóquio, Paris e Moscou, dança-se, comemora-se, comunga-se rock e a juventude de todos os países plana no mesmo ritmo sobre o mesmo planeta.

A difusão mundial do rock suscitou em toda parte, além disso, novas originalidades mestiças como o raï e, enfim, misturadas no rock-fusion,  um tipo de caldo rítmico, onde as culturas musicais do mundo inteiro se casam entre si. Assim, às vezes para o pior, mas também freqüentemente para o melhor, e isso sem se perder, as culturas musicais do mundo inteiro fecundam-se, ainda sem saber, contudo, que geram frutos em todo o planeta.

Quanto à massificação, ela vem da homogeneização técnica, da “macdonaldização” de todas as coisas, mas não vem dos encontros e da mestiçagem. Toda mestiçagem cria a diversidade; veja as belas eurasianas e as belas brasileiras.

Deve-se também deixar os homens e a cultura caminharem em direção à mestiçagem generalizada e diversificada, ele mesmo diversificando por sua vez. As proibições portadoras da maledição que, na era da diáspora humana, constituíam as defesas imunológicas das culturas arcaicas e das religiões dogmáticas, tornaram-se obstáculos à comunicação, à compreensão e à criação na era planetária. Num primeiro momento, os misturadores de estilos são considerados “confusionistas”; os mestiços de etnia e de religião são rejeitados como bastardos e hereges por suas comunidades de origem. Eles são vítimas e mártires de um processo pioneiro de compreensão.

5) As renovações
Ao mesmo tempo em que todos os processos indicados e em reação contra os perigos da perda de identidade e da autenticidade, em toda parte opera-se uma volta às origens, e isso é particularmente notável na música. Como dissemos, é no momento em que iria desaparecer que o flamenco foi ressuscitado por jovens gerações, seguindo o exemplo dos velhos “cantaores”, e o mercado internacional do disco e do espetáculo favoreceu essa ressurreição, multiplicando os amantes de flamenco pelo mundo. Assim, o flamenco é um exemplo de retorno às origens e de mestiçagem, dois processos aparentemente antagônicos mas que na realidade são complementares. Em toda parte, as jovens gerações, tanto na Europa - nos países celta e basco -quanto na África e na Ásia, dedicam-se a preservar músicas, instrumentos e cantos tradicionais. Assim, as culturas tradicionais resistem e se defendem.

No entanto, é necessário precisar aqui que uma cultura rica é uma cultura que, ao mesmo tempo, é preservada e íntegra. É uma cultura ao mesmo tempo aberta e fechada. Contrariamente à idéia de que cada cultura comporta em si própria uma plenitude, Maruyama nota justamente que em cada cultura há algo de disfuncional (falha de funcionamento) de antifuncional (funcionando ao contrário do que se deseja), sub-funcional (atingindo uma desempenho abaixo do nível desejado) e tóxi-funcional (criando danos em seu funcionamento). As culturas são imperfeitas em si mesmas, como nós mesmos somos imperfeitos. Todas as culturas, como a nossa, constituem uma mistura de superstições, ficções, fixações, saberes acumulados e não criticados, erros grosseiros, verdades profundas; mas essa mistura não é discernível à primeira vista; deve-se estar atento para não se classificar como supertisções saberes milenares – como, por exemplo, os modos de preparação do milho no México, que durante muito tempo foram atribuídos pelos antropólogos a crenças mágicas, até que se descobriu que eles permitiam ao organismo assimilar a lisina, substância nutritiva que durante muito tempo foi a base de sua alimentação. De onde surge esse paradoxo, que será aquele do século 21: deve-se ao mesmo tempo preservar e abrir as culturas. Isso não é, porém, nada de inovador: na fonte de todas as culturas, incluindo aquelas que parecem as mais singulares, há o encontro, a associação, o sincretismo, a mestiçagem. Todas as culturas possuem uma possibilidade de assimilar nelas aquilo que lhes é inicialmente estrangeiro, pelo menos até um certo limiar, variável segundo sua vitalidade, e além do qual são elas que serão assimiladas e/ou desintegradas.

Assim, segundo um duplo imperativo complexo do qual não podemos anular a contradição interna – mas essa contradição poderá ser ultrapassada e não é ela necessária à própria vida das culturas? – devemos ao mesmo tempo defender as singularidades culturais e promover as hibridizações e mestiçagens:  devemos ligar a preservação das identidades e a propagação de uma universalidade mestiça ou cosmopolita, que tende a destruir essas identidades.

Como integrar sem desintegrar? O problema coloca-se dramaticamente para as culturas arcaicas, como a dos Inuits. Deveria saber-se fazer com que eles fossem beneficiados pelas vantagens de nossa civilização – saúde, técnicas, conforto etc. – mas saber auxiliá-los a conservar os segredos de sua própria medicina, de seu xamanismo, seu conhecimento de caçadores, seus conhecimentos da natureza etc. Seriam necessários barqueiros, como Jean Malaurie, que não fossem absolutamente missionários religiosos ou laicos vindos para fazer com que eles tivessem vergonha de suas crenças e usos.

Conclusão
É evidente que o desenvolvimento da mundialização cultural é inseparável do desenvolvimento mundial das redes midiáticas, da difusão mundial dos modos de reprodução (cassetes, cds, vídeos) e que a internet e a multimídia acelerarão e amplificarão todos os processos, diversos, concorrentes e antagônicos (ou seja, complexos) que evocamos. Não cremos na desaparição do livro, nem na do cinema; haverá provavelmente até um retorno a um e a outro, o primeiro na intimidade da meditação, da solidão, da releitura, o segundo na comunhão em salas escuras. Cremos também que apesar de seus avanços impressionantes, os processos de padronização e os imperativos do lucro serão contrabalançados pelos processos de diversificação e as necessidades de individualização.

Trata-se de ir em direção a uma sociedade universal fundada sobre  o gênio da diversidade e não sobre a falta de gênio da homogeneidade, o que nos leva a um duplo imperativo, que traz em si sua contradição, mas que não pode fecundar fora dela: em toda parte, preservar, estender, cultivar e desenvolver a diversidade.

A humanidade é ao mesmo tempo una e múltipla. Sua riqueza está na diversidade das culturas, mas podemos e devemos nos comunicar dentro da mesma identidade terrestre. Ao nos convertermos verdadeiramente em cidadãos do mundo, partilhando uma mesma cultura das Cem Flores, é que nos tornamos vigilantes e respeitadores das heranças culturais.